Teimam em contrariar a mudança e sucedem-se iguais, oscilando entre o matraquear de teclas e os silêncios que me entram em casa por portas e janelas entreabertas.
Escorrem cinzentos, dias cor de chumbo, silenciosos e abafados como a chuva envergonhada de hoje.
Tragam-me tempestades, raios e trovões, dias azul eléctrico, noites púrpura, madrugadas súbitas e inesperadas. Tragam-me velocidade, embriaguez, incertezas, quedas, tragédias, desgostos de amor.
Deixem-me suspensa numa vertigem de abismo, ou quebrada no meio do chão.
Há um tempo atrás vi um filme intitulado: “Someone Like You”, cujo argumento se baseava na Teoria da Vaca Nova, que passo a citar: “Se há pouco tempo me tivessem perguntado porque é que eu achava que os homens deixavam as mulheres, eu teria respondido o seguinte: Vaca Nova. A Teoria da Vaca Nova nasceu de um coração partido. Surgiu-me ao ler sobre o comportamento masculino no "New York Times" que continha um estudo fascinante sobre as preferências de acasalamento do boi. Primeiro, davam ao boi... uma vaca. Acasalavam. No dia seguinte, davam a mesma vaca ao boi. O boi já não estava interessado. Queria uma Vaca Nova e a primeira já era considerada uma Vaca Velha. Para enganar o boi, os cientistas recorreram a um truque engenhoso. Besuntaram a Vaca Velha com o cheiro da Vaca Nova. Mas o boi não era parvo. Esta não era uma Vaca Nova. Era a Vaca Velha disfarçada. “ Ou seja, já não havia química, já não havia nada de novo. Não porque a vaca nova fosse melhor do que a vaca velha, mas porque era apenas... novidade. Era mais um troféu. O que há de melhor num relacionamento do que a parte inicial?! Tudo o que vem a seguir é um trabalho árduo de conhecimento mútuo e de adaptação, de cedências que não agradam a todos, nem para as quais muitos estão preparados. Por isso, preferem viver numa superficialidade eterna. Será que lá no fundo são felizes?
Ah!... Para não ferir susceptibilidades, voltei só para vos contar o final do filme: A actriz chegou à conclusão que nem todos os homens são iguais e que nem sempre preferem ficar com a "vaca nova"...
Hoje é dia de ser bom. É dia de passar a mão pelo rosto das crianças, de falar e de ouvir com mavioso tom, de abraçar toda a gente e de oferecer lembranças. É dia de pensar nos outros— coitadinhos— nos que padecem, de lhes darmos coragem para poderem continuar a aceitar a sua miséria, de perdoar aos nossos inimigos, mesmo aos que não merecem, de meditar sobre a nossa existência, tão efémera e tão séria. Comove tanta fraternidade universal. É só abrir o rádio e logo um coro de anjos, como se de anjos fosse, numa toada doce, de violas e banjos, entoa gravemente um hino ao Criador. E mal se extinguem os clamores plangentes, a voz do locutor anuncia o melhor dos detergentes. De novo a melopeia inunda a Terra e o Céu e as vozes crescem num fervor patético. (Vossa Excelência verificou a hora exacta em que o Menino Jesus nasceu? Não seja estúpido! Compre imediatamente um relógio de pulso antimagnético.) Torna-se difícil caminhar nas preciosas ruas. Toda a gente se acotovela, se multiplica em gestos, esfuziante. Todos participam nas alegrias dos outros como se fossem suas e fazem adeuses enluvados aos bons amigos que passam mais distante. Nas lojas, na luxúria das montras e dos escaparates, com subtis requintes de bom gosto e de engenhosa dinâmica, cintilam, sob o intenso fluxo de milhares de quilovates, as belas coisas inúteis de plástico, de metal, de vidro e de cerâmica. Os olhos acorrem, num alvoroço liquefeito, ao chamamento voluptuoso dos brilhos e das cores. É como se tudo aquilo nos dissesse directamente respeito, como se o Céu olhasse para nós e nos cobrisse de bênçãos e favores. A Oratória de Bach embruxa a atmosfera do arruamento. Adivinha-se uma roupagem diáfana a desembrulhar-se no ar. E a gente, mesmo sem querer, entra no estabelecimento e compra— louvado seja o Senhor!— o que nunca tinha pensado comprar. Mas a maior felicidade é a da gente pequena. Naquela véspera Santa a sua comoção é tanta, tanta, tanta, que nem dorme serena. Cada menino abre um olhinho na noite incerta para ver se a aurora já está desperta. De manhãzinha, salta da cama, corre à cozinha mesmo em pijama. Ah!!!!!!!!!! Na branda macieza da matutina luz aguarda-o a surpresa do Menino Jesus. Jesus, o doce Jesus, o mesmo que nasceu na manjedoura, veio pôr no sapatinho do Pedrinho uma metralhadora. Que alegria reinou naquela casa em todo o santo dia! O Pedrinho, estrategicamente escondido atrás das portas, fuzilava tudo com devastadoras rajadas e obrigava as criadas a caírem no chão como se fossem mortas: Tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá. Já está! E fazia-as erguer para de novo matá-las. E até mesmo a mamã e o sisudo papá fingiam que caíam crivados de balas. Dia de Confraternização Universal, Dia de Amor, de Paz, de Felicidade, de Sonhos e Venturas. É dia de Natal. Paz na Terra aos Homens de Boa Vontade. Glória a Deus nas Alturas.
No passado dia 14 de Novembro fui até ao CCB ouvir uma das mais fascinantes vozes femininas contemporâneas... Lisa Ekdahl. Compositora e letrista das suas próprias canções, possui uma voz doce e cândida, de menina, que a consagrou além fronteiras. Conquistou, por três vezes, os prestigiados Grammy Awards. Cantando em inglês e sueco, o seu repertório habitual divide-se entre o chamado smooth jazz e a pop music, embora em 2001 tenha editado o álbum Lisa Ekdahl Sings Salvadore Poe, em que reinava o bossa nova jazz. Se quiser deixar-se envolver pela sua voz melodiosa, oiça o álbum "Back to Earth". Experimente!