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sábado, 10 de janeiro de 2009

Tédio


"Lentos como sombras, os dias escorrem.

Teimam em contrariar a mudança e sucedem-se iguais, oscilando entre o matraquear de teclas e os silêncios que me entram em casa por portas e janelas entreabertas.

Escorrem cinzentos, dias cor de chumbo, silenciosos e abafados como a chuva envergonhada de hoje.

Tragam-me tempestades, raios e trovões, dias azul eléctrico, noites púrpura, madrugadas súbitas e inesperadas.
Tragam-me velocidade, embriaguez, incertezas, quedas, tragédias, desgostos de amor.

Deixem-me suspensa numa vertigem de abismo, ou quebrada no meio do chão.

Façam-me rir ou chorar como um palhaço.

Tudo menos esta exaustão de tédio."

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sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Dia de Natal

Hoje é dia de ser bom.
É dia de passar a mão pelo rosto das crianças,
de falar e de ouvir com mavioso tom,
de abraçar toda a gente e de oferecer lembranças.
É dia de pensar nos outros— coitadinhos— nos que padecem,
de lhes darmos coragem para poderem continuar a aceitar a sua miséria,
de perdoar aos nossos inimigos, mesmo aos que não merecem,
de meditar sobre a nossa existência, tão efémera e tão séria.
Comove tanta fraternidade universal.
É só abrir o rádio e logo um coro de anjos,
como se de anjos fosse,
numa toada doce,
de violas e banjos,
entoa gravemente um hino ao Criador.
E mal se extinguem os clamores plangentes,
a voz do locutor
anuncia o melhor dos detergentes.
De novo a melopeia inunda a Terra e o Céu
e as vozes crescem num fervor patético.
(Vossa Excelência verificou a hora exacta em que o Menino Jesus nasceu?
Não seja estúpido! Compre imediatamente um relógio de pulso antimagnético.)
Torna-se difícil caminhar nas preciosas ruas.
Toda a gente se acotovela, se multiplica em gestos, esfuziante.
Todos participam nas alegrias dos outros como se fossem suas
e fazem adeuses enluvados aos bons amigos que passam mais distante.
Nas lojas, na luxúria das montras e dos escaparates,
com subtis requintes de bom gosto e de engenhosa dinâmica,
cintilam, sob o intenso fluxo de milhares de quilovates,
as belas coisas inúteis de plástico, de metal, de vidro e de cerâmica.
Os olhos acorrem, num alvoroço liquefeito,
ao chamamento voluptuoso dos brilhos e das cores.
É como se tudo aquilo nos dissesse directamente respeito,
como se o Céu olhasse para nós e nos cobrisse de bênçãos e favores.
A Oratória de Bach embruxa a atmosfera do arruamento.
Adivinha-se uma roupagem diáfana a desembrulhar-se no ar.
E a gente, mesmo sem querer, entra no estabelecimento
e compra— louvado seja o Senhor!— o que nunca tinha pensado comprar.
Mas a maior felicidade é a da gente pequena.
Naquela véspera Santa
a sua comoção é tanta, tanta, tanta,
que nem dorme serena.
Cada menino
abre um olhinho
na noite incerta
para ver se a aurora
já está desperta.
De manhãzinha,
salta da cama,
corre à cozinha
mesmo em pijama.
Ah!!!!!!!!!!
Na branda macieza
da matutina luz
aguarda-o a surpresa
do Menino Jesus.
Jesus,
o doce Jesus,
o mesmo que nasceu na manjedoura,
veio pôr no sapatinho
do Pedrinho
uma metralhadora.
Que alegria
reinou naquela casa em todo o santo dia!
O Pedrinho, estrategicamente escondido atrás das portas,
fuzilava tudo com devastadoras rajadas
e obrigava as criadas
a caírem no chão como se fossem mortas:
Tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá.
Já está!
E fazia-as erguer para de novo matá-las.
E até mesmo a mamã e o sisudo papá
fingiam
que caíam
crivados de balas.
Dia de Confraternização Universal,
Dia de Amor, de Paz, de Felicidade,
de Sonhos e Venturas.
É dia de Natal.
Paz na Terra aos Homens de Boa Vontade.
Glória a Deus nas Alturas.
António Gedeão

domingo, 21 de setembro de 2008

"O Acto Sexual É Para Fazer Filhos"

Este episódio passou-se há uns anos atrás, na Assembleia da República, quando se discutia sobre a Legalização do Aborto. O Deputado João Morgado, do CDS, numa das suas inteligentes intervenções disse: «O acto sexual é para fazer filhos».
Natália Correia perguntou-lhe quantos filhos tinha:
- Um! (coitado do Morgado, estava desgraçado).
Para seu azar, Natália Correia nesse dia estava particularmente inspirada, e ali mesmo na bancada pegou numa caneta e num papel, escreveu um poema e pediu a palavra.
A sua intervenção foi ler o poema que tinha acabado de compor. Foi uma gargalhada geral no hemiciclo e em Portugal, porque teve honras de Telejornal.
Aqui vai:

O TRUCA-TRUCA DO MORGADO
Já que o coito
- diz Morgado -
tem como fim cristalino,
preciso e imaculado
fazer menina ou menino;
e cada vez que o varão
sexual petisco manduca,
temos na procriação
prova de que houve truca-truca.
Sendo pai só de um rebento,
lógica é a conclusão
de que o viril instrumento
só usou - parca ração! - uma vez.
E se a função faz o orgão
- diz o ditado -
consumada essa excepção,
ficou capado o Morgado.

Natália Correia

Todos os Homens são maricas quando estão com gripe

Pachos na testa Terço na mão Uma botija Chá de limão Zaragatoas Vinho com mel Três aspirinas Creme na pele Dói-me a garganta Chamo a mulher Ai Lurdes, Lurdes Que vou morrer Mede-me a febre Olha-me a goela Cala os miúdos Fecha a janela Não quero canja Nem a salada Ai Lurdes, Lurdes Não vales nada Se tu sonhasses Como me sinto Já vejo a morte Nunca te minto Já vejo o inferno Chamas diabos Anjos estranhos Cornos e rabos Vejo os demónios Nas suas danças Tigres sem listras Bodes de tranças Choros de coruja Risos de grilo Ai Lurdes, Lurdes Que foi aquilo Não é a chuva No meu postigo Ai Lurdes, Lurdes Fica comigo Não é o vento A cirandar Nem são as vozes Que vêm do mar Não é o pingo De uma torneira Põe-me a santinha À cabeceira Compõe-me a colcha Fala ao prior Pousa o Jesus No cobertor Chama o doutor Passa a chamada Ai Lurdes, Lurdes Nem dás por nada Faz-me tisanas E pão-de-ló Não te levantes Que fico só Aqui sozinho A apodrecer Ai Lurdes, Lurdes Que vou morrer.

António Lobo Antunes

domingo, 3 de agosto de 2008

Amigo


Ergue os braços no ar
Para o Sol em ti entrar
Permanece firme,
Sem vergar.
Despe-te de mágoas
Limpa do rosto as lágrimas
Que te fazem cegar.
Toca com os dedos os fios de luar
E faz da noite um novo despertar.
Viver, é ir ao fundo e voltar
É cair e levantar.
Ergue os braços no ar...

SPL (1997)

Ser Errante


Habitei no espaço perdido do exílio
E aí formei a minha pátria, o meu lar.
Sem rei nem lei para me governar.
Mas, logo caí no abismo do meu ser,
Profundo,
Solidão.
Caí sobre o mar imenso,
Sem fundo,
Escuridão.
Estendeste-me os braços, para não naufragar
Descobri uma ilha, e aí quis ficar.
Equilíbrio,
Suspensão.
Comecei a amar,
Ilusão.
Os teus braços prendem-me!
Aí não quero ficar.
Voei até ao Sol para me libertar.
Sem asas, deixo-me cair...
No asfalto gelado, olho para o ar.
A Lua tenta-me.
Lanço uma escada de estrelas para lá chegar.
Mas, não é aí que quero ficar.
Volto novamente aos teus braços,
Ao teu leito,
Ao meu Lar.

SPL (1996)

sábado, 2 de agosto de 2008

Os Amantes


Antes,
Amantes
Errantes.

Agora,
Amor
A toda a hora.

Depois,
Partiram
Os dois.

SPL (1996)

Sufoco


Ei! Está aí alguém?
Não...Estou sozinha...
Quanta gente estranha me rodeia!
Quantos surdos, quantos nós me enleiam,
Estou presa, não vêem?
Ei!...Não vale a pena,
Ninguém responde...
Será que olham e não me vêem?
Por favor!...
Não vêem que estou a morrer?
Não percebem que preciso de viver.
MALDITOS! Não me vêem...

SPL (1981)