Teimam em contrariar a mudança e sucedem-se iguais, oscilando entre o matraquear de teclas e os silêncios que me entram em casa por portas e janelas entreabertas.
Escorrem cinzentos, dias cor de chumbo, silenciosos e abafados como a chuva envergonhada de hoje.
Tragam-me tempestades, raios e trovões, dias azul eléctrico, noites púrpura, madrugadas súbitas e inesperadas. Tragam-me velocidade, embriaguez, incertezas, quedas, tragédias, desgostos de amor.
Deixem-me suspensa numa vertigem de abismo, ou quebrada no meio do chão.
Hoje é dia de ser bom. É dia de passar a mão pelo rosto das crianças, de falar e de ouvir com mavioso tom, de abraçar toda a gente e de oferecer lembranças. É dia de pensar nos outros— coitadinhos— nos que padecem, de lhes darmos coragem para poderem continuar a aceitar a sua miséria, de perdoar aos nossos inimigos, mesmo aos que não merecem, de meditar sobre a nossa existência, tão efémera e tão séria. Comove tanta fraternidade universal. É só abrir o rádio e logo um coro de anjos, como se de anjos fosse, numa toada doce, de violas e banjos, entoa gravemente um hino ao Criador. E mal se extinguem os clamores plangentes, a voz do locutor anuncia o melhor dos detergentes. De novo a melopeia inunda a Terra e o Céu e as vozes crescem num fervor patético. (Vossa Excelência verificou a hora exacta em que o Menino Jesus nasceu? Não seja estúpido! Compre imediatamente um relógio de pulso antimagnético.) Torna-se difícil caminhar nas preciosas ruas. Toda a gente se acotovela, se multiplica em gestos, esfuziante. Todos participam nas alegrias dos outros como se fossem suas e fazem adeuses enluvados aos bons amigos que passam mais distante. Nas lojas, na luxúria das montras e dos escaparates, com subtis requintes de bom gosto e de engenhosa dinâmica, cintilam, sob o intenso fluxo de milhares de quilovates, as belas coisas inúteis de plástico, de metal, de vidro e de cerâmica. Os olhos acorrem, num alvoroço liquefeito, ao chamamento voluptuoso dos brilhos e das cores. É como se tudo aquilo nos dissesse directamente respeito, como se o Céu olhasse para nós e nos cobrisse de bênçãos e favores. A Oratória de Bach embruxa a atmosfera do arruamento. Adivinha-se uma roupagem diáfana a desembrulhar-se no ar. E a gente, mesmo sem querer, entra no estabelecimento e compra— louvado seja o Senhor!— o que nunca tinha pensado comprar. Mas a maior felicidade é a da gente pequena. Naquela véspera Santa a sua comoção é tanta, tanta, tanta, que nem dorme serena. Cada menino abre um olhinho na noite incerta para ver se a aurora já está desperta. De manhãzinha, salta da cama, corre à cozinha mesmo em pijama. Ah!!!!!!!!!! Na branda macieza da matutina luz aguarda-o a surpresa do Menino Jesus. Jesus, o doce Jesus, o mesmo que nasceu na manjedoura, veio pôr no sapatinho do Pedrinho uma metralhadora. Que alegria reinou naquela casa em todo o santo dia! O Pedrinho, estrategicamente escondido atrás das portas, fuzilava tudo com devastadoras rajadas e obrigava as criadas a caírem no chão como se fossem mortas: Tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá. Já está! E fazia-as erguer para de novo matá-las. E até mesmo a mamã e o sisudo papá fingiam que caíam crivados de balas. Dia de Confraternização Universal, Dia de Amor, de Paz, de Felicidade, de Sonhos e Venturas. É dia de Natal. Paz na Terra aos Homens de Boa Vontade. Glória a Deus nas Alturas.
Este episódio passou-se há uns anos atrás, na Assembleia da República, quando se discutia sobre a Legalização do Aborto. O Deputado João Morgado, do CDS, numa das suas inteligentes intervenções disse: «O acto sexual é para fazer filhos». Natália Correia perguntou-lhe quantos filhos tinha: - Um! (coitado do Morgado, estava desgraçado). Para seu azar, Natália Correia nesse dia estava particularmente inspirada, e ali mesmo na bancada pegou numa caneta e num papel, escreveu um poema e pediu a palavra. A sua intervenção foi ler o poema que tinha acabado de compor. Foi uma gargalhada geral no hemiciclo e em Portugal, porque teve honras de Telejornal.
Pachos na testa Terço na mão Uma botija Chá de limão Zaragatoas Vinho com mel Três aspirinas Creme na pele Dói-me a garganta Chamo a mulher Ai Lurdes, Lurdes Que vou morrer Mede-me a febre Olha-me a goela Cala os miúdos Fecha a janela Não quero canja Nem a salada Ai Lurdes, Lurdes Não vales nada Se tu sonhasses Como me sinto Já vejo a morte Nunca te minto Já vejo o inferno Chamas diabos Anjos estranhos Cornos e rabos Vejo os demónios Nas suas danças Tigres sem listras Bodes de tranças Choros de coruja Risos de grilo Ai Lurdes, Lurdes Que foi aquilo Não é a chuva No meu postigo Ai Lurdes, Lurdes Fica comigo Não é o vento A cirandar Nem são as vozes Que vêm do mar Não é o pingo De uma torneira Põe-me a santinha À cabeceira Compõe-me a colcha Fala ao prior Pousa o Jesus No cobertor Chama o doutor Passa a chamada Ai Lurdes, Lurdes Nem dás por nada Faz-me tisanas E pão-de-ló Não te levantes Que fico só Aqui sozinho A apodrecer Ai Lurdes, Lurdes Que vou morrer.
Ergue os braços no ar Para o Sol em ti entrar Permanece firme, Sem vergar. Despe-te de mágoas Limpa do rosto as lágrimas Que te fazem cegar. Toca com os dedos os fios de luar E faz da noite um novo despertar. Viver, é ir ao fundo e voltar É cair e levantar. Ergue os braços no ar...
Habitei no espaço perdido do exílio E aí formei a minha pátria, o meu lar. Sem rei nem lei para me governar. Mas, logo caí no abismo do meu ser, Profundo, Solidão. Caí sobre o mar imenso, Sem fundo, Escuridão. Estendeste-me os braços, para não naufragar Descobri uma ilha, e aí quis ficar. Equilíbrio, Suspensão. Comecei a amar, Ilusão. Os teus braços prendem-me! Aí não quero ficar. Voei até ao Sol para me libertar. Sem asas, deixo-me cair... No asfalto gelado, olho para o ar. A Lua tenta-me. Lanço uma escada de estrelas para lá chegar. Mas, não é aí que quero ficar. Volto novamente aos teus braços, Ao teu leito, Ao meu Lar.